Marta Fernandes: “Sou uma mãe muito dedicada”
A actriz Marta Fernandes está de regresso à ficção depois de ter vivido intensamente a experiência da maternidade, que a mudou por completo.

- Tornou-se conhecida pela participação na telenovela ‘Chiquititas’, na SIC. Como é que surgiu esta oportunidade?
- Já tinha feito uma série produzida pela Teresa Guilherme e como ela ficou a conhecer o meu trabalho, convidou-me para fazer o casting para as ‘Chiquititas’, juntamente com cerca de 20 actrizes, e fui a escolhida para o papel de protagonista.
- A novela teve muito sucesso e trouxe-lhe visibilidade. Como é que foi lidar com esse mediatismo?
- Aconteceu muito naturalmente e devagarinho. Nessa altura, eu vivia no centro de Lisboa e continuei a fazer as coisas como fazia habitualmente e, aos poucos, as pessoas começaram a abordar-me na rua. Como era uma novela infantil nem toda a gente via e, por isso, foi um mediatismo muito gradual e foi fácil habituar-me até porque as pessoas, em geral, são simpáticas.
- Ainda a abordam na rua por causa desse trabalho?
- Sim, o que incrível. Eu estou a fazer outro trabalho neste momento e as pessoas continuam a chamar-me ‘Chiquitita’ na rua, portanto, vou ser eternamente uma ‘Chiquitita’.
- Teve uma ascensão muito rápida… Sente que, de alguma maneira, depois caiu no esquecimento?
- Quando se entra neste universo pela porta grande, ou seja, como protagonista, é complicado manter o protagonismo e, sinceramente, não sei se tinha algum interesse em que isso acontecesse… No final das gravações senti que precisava de algum tempo para descansar física e emocionalmente. Estava muito ligada àquela personagem e foi bom descansar a minha imagem. E depois, até acabou tudo por coincidir, engravidei, fui mãe e estive afastada durante algum tempo para repensar o que queria fazer e estabelecer as minhas prioridades. As coisas acontecem quando têm que acontecer e durante este período fui usufruindo de tudo o que conquistei nas ‘Chiquititas’.
- Contracenava, sobretudo, com crianças. Dificultava o seu trabalho?
Não. De maneira alguma. É muito bom contracenar com crianças. São altamente profissionais, muito naturais e correctos. Tenho saudades de alguns deles.
- A sua personagem (Lili) cantava e dançava. Exigiu uma preparação especial?
- Não. Tenho formação de canto e dançar sempre foi uma coisa muito natural para mim e que faço com prazer. Foi uma preparação normal que exige mais concentração. É preciso trabalhar as canções mas estava habituada porque fiz musicais no teatro. Estou habituada a cantar, representar e dançar ao mesmo tempo.
- Tem alguma referência na área da representação?
Tenho imensas. Sou muito bom público, deixo-me envolver pela história e emociono-me. Quando gosto de uma cena, essa cena torna-se uma referência para mim. Não recordo trabalhos completos mas há actores que às vezes me surpreendem imenso. Internacionalmente, gosto muito da Jodie Foster, Michelle Pfeiffer e da Emily Watson. Em Portugal aprecio mais o trabalho de homens, o Gonçalo Waddington, o Ivo Canelas são muito bons. Às vezes nem sei o nome dos actores e fico surpreendida com o trabalho que realizam. Gosto muito de ver os meus colegas a trabalharem e fico cheia de emoção e de orgulho quando vejo coisas bem feitas por colegas nacionais.
- Sente que está no momento de voltar a fazer um papel como protagonista?
- Não é algo que ambicione. Ser protagonista não é o meu sonho porque implica uma grande dedicação e, neste momento, ia ser um grande transtorno em termos familiares para mim porque tenho uma filha pequenina. É claro que tudo se organiza e eu teria que me adaptar mas ia ser complicado e, por isso, estou muito contente com o trabalho que estou a fazer agora. Permite-me ser mãe, mulher, irmã, filha e trabalhar, o que me está a dar grande prazer.
- Não ambiciona um contrato de exclusividade?
- É importante em termos financeiros e de progressão na carreira porque garante trabalho. Não penso muito nisso. As coisas surgem quando têm que surgir. O meu trabalho está à vista e se acharem que mereço um contrato muito bem. Eu quero é trabalhar.
- Depois de alguns anos longe dos ecrãs nacionais está de volta na novela ‘Louco Amor’. Como é que está a correr este novo projecto?
- Este trabalho está-me a dar muito gosto. Sou frequentemente surpreendida nas cenas porque a minha personagem é muito proactiva e isso acaba por me dar energia e mantém-me entusiasmada.
- Como é que é a sua personagem (Joana)?
- É uma personagem muito gira e realista. É igual às pessoas normais, tem família, está desempregada, tem uma carreira como advogada que não pode exercer mas que, entretanto, vai usar a favor dela. Além disso, a Joana canta o que faz com que a personagem seja especial. É engraçada e tem uma capacidade enorme para resolver todo o tipo de situações, é mesmo muito proactiva.
- Há alguma semelhança entre a Marta e a personagem que interpreta?
- Não sou tão perspicaz como ela. Mas é claro que temos algumas semelhanças, eu também sou mulher e sou mãe. Mas é uma personagem mesmo muito especial porque supera constantemente as dificuldades.
- Esteve afastada da televisão durante quatro anos. O que é que fez durante esse tempo?
- Fui mãe e dediquei um ano em exclusivo à minha filha. No ano seguinte comecei a fazer algumas coisas, dei aulas de interpretação e fiz locuções, que são relativamente bem pagas e era um trabalho que dava para levar a Maria comigo. Apresentei muitos espectáculos, cantei em alguns e fiz um telefilme antes de começar a gravar a novela. Portanto, nunca estive parada.
- Como é que se lida com a falta de convites para trabalhar em televisão ou quando é recusada para algum papel?
- Isso é o pão nosso de cada dia. Tem sempre algum impacto, principalmente, quando é alguma coisa que eu quero fazer. Ouvir um não quando se quer muito o papel é chato mas faz parte desta profissão.
- Alguma vez ponderou abandonar a área da representação?
- Não. É isto que eu quero fazer para o resto da minha vida.
- Licenciou-se em ‘Estudos Teatrais’. Tirou o curso por vontade própria ou por imposição dos seus pais?
- Foi por vontade própria, era isto que eu queria.
- Desde criança?
- Sim. Sonhava com teatro e em ser actriz ou cantora. O meu maior sonho era mesmo ganhar um Óscar. Por isso é que decidi apostar na formação. Para mim não fazia sentido ser formada em mais nada.
- Como é que surgiu esta paixão pela representação?
- Sinceramente não sei. É uma coisa natural e é mesmo uma paixão. Quanto mais entrava no universo da representação mais me ia apaixonando. Eu vivia no Interior e não tinha acesso ao teatro e nem via espectáculos. A primeira peça que eu vi foi no Porto, quando já estava estudar. Não havia ninguém na minha família com ligações à arte do espectáculo. A paixão transformou-se em amor…
- Como recorda a sua infância?
- Tenho poucas memórias porque não sou de guardar muitas recordações. Tive uma infância muito familiar. Brincava imenso, tinha muitos amigos e acho que tive uma infância feliz. Tinha uma família muito unida e viaja muito para o estrangeiro com os meus pais. Tive uma infância muito tranquila.
- Nasceu em Alcanena. Com que idade se mudou para o Porto?
- Fui para o Porto quando acabei o 12º Ano. Tirei o curso e depois fiquei lá a trabalhar.
- Cresceu no campo e depois mudou-se sozinha para uma cidade nova e muito maior… Como é que foi a adaptação ao Porto?
- Foi fácil. Eu conhecia bem a cidade porque ia lá muitas vezes com os meus pais e já tinha amigos lá. Vivia muito perto da escola, não tinha que apanhar transportes públicos e fui-me adaptando de um modo muito natural à cidade.
- Começou logo a trabalhar quando acabou o curso?
- Sim. Estava ligada a uma companhia de teatro mas a dada altura comecei a não gostar muito do caminho que as coisas estavam a seguir e afastei-me. Fiquei sem trabalho e decidi voltar para casa da minha mãe, em Alcanena. Entretanto, uma amiga ligou-me a dizer que o Filipe La Féria ia fazer, no dia seguinte, audições para um musical. Nunca tinha visto um musical dele e até hoje continuo sem ver, assisti apenas àquele em que participei. Não me identifico com a linha artística nem com o gosto dele. Os temas são bons, a música também mas o estilo não me agrada e nunca pensei trabalhar com ele. Mas naquele momento a necessidade falou mais alto… Eu precisava de trabalho e queria vir para Lisboa e as coisas acabaram por se conjugar. Fiz o casting de cantora, para não aparecer no palco, e fui seleccionada. E foi assim que vim para a capital, em 2005, fazer ‘A Canção de Lisboa’, do La Féria.
- Foi a encenadora do musical ‘The Music Man’.Como correu?
- Correu muito bem. Foi com músicos instrumentistas e cantores. O musical era extraordinário em termos musicais e o resultado foi muito emocionante.
- O que é que gosta mais: representar, cantar ou encenar?
- Encenar é o que gosto menos. É muito difícil escolher entre representar e cantar porque são prazeres diferentes.
- O que é a fascina mais no teatro?
- O tempo e o processo de preparação da personagem. Também gosto muito do convívio entre as pessoas. Estar em cima do palco é muito enriquecedor. Fazer teatro é muito sensorial, temos que ter os cinco sentidos a funcionar em simultâneo com o público e isso é magico e são momentos que não se repetem.
- E na televisão?
- Gosto da rapidez até porque eu sou muito despachada e adoro a sensação de chegar lá, preparar as cenas, gravar e vir embora. Dá-nos uma rapidez de raciocínio que é muito útil.
- Também já fez cinema. Que diferenças encontra entre esta área e as outras?
- É um universo à parte. É bom porque proporciona muitas experiências, gravamos em muitos sítios, com condições adversas e isso é muito giro. É quase uma mistura do teatro com a televisão porque os meios técnicos são fundamentais, como na televisão, mas também temos tempo para a criação e discussão das personagens, como no teatro.
- Em termos profissionais sente que ainda lhe falta fazer alguma coisa?
- Sem dúvida alguma. Há tantos papéis que eu gostava de fazer e tanta gente com quem eu gostava de trabalhar e me cruzar…
- Mudando um bocadinho de assunto, como é que conheceu o seu marido, Yanni Costa?
- Conhecemo-nos em Cuba, numa piscina onde ele estava a trabalhar. Eu estava lá de férias, conversámos durante uns dias, e depois regressei a Portugal mas continuei a falar com ele. Até que decidi voltar a Cuba para nos conhecermos melhor. Tive lá três meses e foi assim que tudo começou.
- Quando é que tomaram a decisão de ele se mudar para Portugal?
- Decidimos que queríamos estar juntos e que era mais fácil e lógico ele mudar-se para Portugal do que ir eu para lá.
- Têm uma diferença de idades considerável (11 anos). Não pesou na altura em que se decidiram juntar?
- Não. As pessoas quando estão apaixonadas não pensam nessas coisas.
- A Marta engravidou pouco tempo depois de começarem a namorar. A gravidez foi planeada?
- Foi desejada. Não foi planeada mas foi muito desejada de ambas as partes. Eu queria ser mãe e senti que era a altura ideal. Tinha condições físicas, financeira e familiares para ser mãe.
- Como é que correu a gravidez?
- Foram os nove meses mais pacíficos da minha existência. Desfrutei imenso da gravidez, com tudo a que tinha direito: mimo, descanso, passar à frente nas filas…
- Ser mãe mudou-a?
- Completamente. É passar para outra dimensão. A minha vida divide-se em duas fases: antes e depois de ser mãe. Agora tenho uma pessoa que é mais importante para mim do que eu própria. O sentimento por um filho não se compara com nada. Há uma dedicação total a outro ser. Todos os dias acordo e sinto uma borboleta no estômago porque penso ‘A Maria existe, está ali’ e é muito bom.
- E como é que é sentir um filho, nos braços, pela primeira vez?
- É uma confusão! É a melhor coisa do mundo mas estão a acontecer tantas coisas à nossa volta que acaba por se tornar caótico. Mas o que mais recordo da Maria é o calor. O calor que saía da boquinha dela…
- O Yanni assistiu ao parto?
- Começou a assistir mas depois desistiu. A Maria nasceu de cesariana, ele estava aos meus pés e viu demais… Não aguentou mas tentou!
- É uma mãe galinha?
- Não. Sou uma mãe cuidadosa e extremamente dedicada. Deixo-a brincar e sujar-se. Tenho cuidado com a saúde dela porque é a única coisa que me assusta. Só sei que vou estar sempre com a Maria. Até ao meu último suspiro, vou estar sempre ao lado da minha filha. Em qualquer situação.
- Custa-lhe estar longe da Maria?
- Claro. A minha filha tem dois anos e três meses e eu só passei um fim-de-semana longe dela por isso custa-me. Custou-me muito quando a deixei pela primeira vez na escola. Fartei-me de chorar durante uma semana mas felizmente a Maria adaptou-se muito bem.
- Como é que é a Maria?
- É muito gira! Fisicamente é parecida com o pai e no carácter tem um bocadinho dos dois. Está numa fase engraçada mas ao mesmo tempo complicada. Faz muitas birras mas já fala e é muito bom conseguir perceber tudo o que ela diz e quer.
- As crianças às vezes são muito cruéis. Tem medo que alguma vez tratem mal a Maria?
- Já pensei nisso e quero muito conseguir manter a comunicação entre mim e a minha filha. Se eu conseguir isto vou facilmente perceber se alguma coisa correr mal porque ela vai-me usar para sair dessa situação. Sem comunicação é muito difícil para os pais conseguirem resolver essas situações. Quero que haja sempre muita confiança entre nós.
- Imagina-se como a melhor amiga da Maria?
- Não. Mãe é mãe. Sou mãe dela e não amiga nem colega da escola e quero que ela perceba isso. Quero é que ela saiba que pode contar comigo e pedir-me ajuda sempre que precisar mas há coisas e pormenores que eu nunca vou querer saber.
- Gostava de ter mais filhos?
- Gostava e ainda tenho tempo para o fazer.
- É mais prudente desde que ela nasceu?
- Sou mais cuidadosa comigo. Não arrisco tanto porque agora tenho mais responsabilidade. Ela depende de mim e isso é uma grande responsabilidade.
- Casou grávida. Foi um momento especial?
- Sim. Foi um momento muito íntimo, só para a família. Foi um acto de paixão, uma maneira de celebrar e de nos unirmos. Agora, quero fazer uma festa e convidar toda a gente para celebrar o nosso casamento mas ainda não foi possível. Talvez quando a Maria tiver cinco anos, já não quiser o meu colo, façamos uma festa. Faz parte dos nossos planos.
- Foi pedida em casamento?
- Sim, caso contrário não teria casado. Sou mulher e há coisas que fazem parte do código de comportamento das mulheres e dos homens. Foi um momento romântico e aguçou-me a vontade de casar.
INTIMIDADES
- Quem convidaria para um jantar a dois?
- O meu marido, Yanni Costa.
- Quem é o homem mais sexy?
- O meu marido, todos os dias!
- O que não suporta no sexo oposto?
- Não generalizo dessa maneira. Há coisas que eu não me agradam no meu homem e tento contornar ou fazer com que ele contorne.
- Qual é o seu maior vício?
- Não sou uma pessoa de vícios, sou muito equilibrada mas acho que neste momento o meu maior e único vício é mesmo a Maria, posso ter em excesso mas nunca me farto.
- Qual foi o último livro que leu?
- ‘Boquitas Pintadas’, do escritor argentino Manuel Puig.
- O filme da sua vida?
- Há imensos que eu recordo. Não tenho nenhum filme de eleição.
- Cidade preferida?
- Adoro Lisboa e Havana.
- Um desejo?
- Estar feliz e tranquila.
- Complete. A minha vida é…
- Boa.
PERFIL
Marta Fernandes tem 32 anos e tornou-se popular como protagonista da novela ‘Chiquititas’, na SIC. Actualmente, a actriz integra o elenco de ‘Louco Amor’, na TVI. É casada com o cubano Yanni Costa, de quem tem uma filha, Maria, de dois anos.












